Claudilei Simões de Sousa

Mara de Paula Giacomeli

A Formiga e o Peso do Invisível

Prezado leitor, prezada leitora,

Nem toda história termina quando o vilão sai de cena. Algumas, na verdade, apenas começam. O verdadeiro impacto de um ambiente tóxico não está no momento em que a tirania acontece, mas no veneno silencioso que permanece drenando a confiança e a energia muito depois que o opressor se foi.

Meses haviam se passado desde a queda do antigo gestor. O pântano, como muitos diziam nos corredores de Pantonópolis, parecia drenado. A empresa de Jubalino Leão seguia em frente, vestida com novos processos, novos discursos motivacionais e novos rostos. Mas, curiosamente, os números contavam outra história.

A produtividade havia caído drasticamente. Os custos operacionais aumentavam sem explicação lógica. E as novas contratações — cuidadosamente selecionadas por currículos impecáveis — não entregavam nem metade do que se esperava. Jubalino, antes convicto de que o problema era apenas “gente mal direcionada” pelo gestor anterior, agora se via diante de uma inquietação incômoda: “Onde foi que erramos?”

Ele não percebia, mas o erro não estava no que ele via, mas no que ele escolhera não enxergar.

Juventina Belfor Miga — conhecida por todos como a Formiga — não estava mais lá. Sua mesa, antes um exemplo de organização, havia sido ocupada por dois novos analistas e uma pilha crescente de relatórios de desempenho que ninguém parecia ler. Mas havia algo que não se substituía tão facilmente com um novo processo ou um software de gestão.

A Formiga não era apenas produtiva. Ela era o registro perfeito de uma máquina de cores: se estivesse um milímetro fora, ninguém notava de imediato, mas o resultado final saía manchado. Juventina sustentava silêncios vitais para a operação. Ela organizava o caos administrativo antes que ele chegasse à produção. Antecipava problemas técnicos que ninguém mais via e, principalmente, carregava um tipo raro e valioso de compromisso: o compromisso com o invisível.

Enquanto Jubalino tentava decifrar a queda nos gráficos, Juventina, do outro lado da cidade, vivia um cenário diferente. Ou quase. Sentada diante da tela de mais uma vaga aberta, lia descrições que pareciam cópias umas das outras: “Ambiente dinâmico. Alta performance. Resiliência sob pressão.”

Ela respirou fundo. — “Resiliência…” — murmurou, com um meio sorriso cansado. Na prática, já sabia o que aquilo significava: trabalhar muito, falar pouco e, no final, torcer para ser vista antes de ser esgotada.

Em uma dessas tentativas, foi chamada para uma entrevista na conceituada Bull’s Solutions. Do outro lado da mesa estava Anésio Touro, gerente de operações, voz firme e postura impecável. — “Aqui valorizamos pessoas protagonistas”, disse ele, com a segurança de quem decorou o manual de RH. Ao lado, anotando cada palavra, estava Valfrida Cegonha, do RH, olhar atento e silencioso. — “E o que você espera de um ambiente de trabalho?”, perguntou ela, com uma suavidade que desarmava.

Juventina hesitou por um segundo. Pergunta simples. Resposta… nem tanto. — “Um lugar onde fazer o certo não seja um esforço solitário.”

Um silêncio pesado tomou a sala. Anésio ajeitou a gravata, visivelmente desconfortável. Valfrida levantou os olhos do papel, surpresa. Havia algo naquela resposta que não cabia em currículo, uma integridade que não se media em KPIs.

Enquanto isso, na antiga empresa, Jubalino começava a conectar os pontos. Chamou Romildo Aranha, responsável pelos controles. — “Romildo, me explica uma coisa… Temos mais gente, mais processos, mais relatórios… Mas menos resultado. Onde está o gargalo?” Romildo pigarreou. — “Estamos organizando melhor as informações, senhor. Levam tempo para maturar…” — “Eu não quero informação, Romildo”, interrompeu Jubalino, batendo o punho na mesa. — “Eu quero o resultado que tínhamos antes!”

Clementina Cigarra, recém-contratada para a estratégia, tentou contribuir: — “Talvez seja uma questão de engajamento, senhor Leão. Precisamos de uma nova campanha interna…”

Jubalino recostou na cadeira, exausto. A palavra engajamento ecoou como algo distante, artificial. Ele sentia que a resposta estava em outro lugar.

Naquela noite, sozinho no escritório silencioso, ele abriu antigos relatórios de vendas e produção. Ali estavam os números: consistentes, crescentes, sólidos. E, no rodapé de muitos deles, uma rubrica discreta, quase imperceptível, se repetia consistentemente: “Juventina B. Miga”.

Ele ficou em silêncio. Pela primeira vez, não como gestor preocupado com o lucro… mas como alguém tentando entender o que não viu. Ou o que escolheu não ver. Ele tinha os números em mãos, mas percebeu, com um amargor na garganta, que tinha perdido a alma da operação. O “pântano” não era apenas o gestor tóxico; era a cultura que ele, Jubalino, permitira que ignorasse o valor do trabalho silencioso e leal.

Dias depois, durante uma reunião de diretoria, alguém comentou sobre a dificuldade do mercado: — “Estamos com dificuldade de encontrar pessoas com esse nível de entrega…” Jubalino respondeu, quase automático: — “Pessoas assim são raras.”

Mas, dessa vez, a frase não trouxe conforto ou justificativa. Trouxe peso. Porque, no fundo, ele sabia: elas não eram raras. Elas apenas eram mal cuidadas.

Juventina saiu da entrevista na Bull’s Solutions sem saber se seria escolhida. Mas, pela primeira vez em muito tempo, não carregava a mesma urgência ou ansiedade. Ainda havia dúvida, ainda havia cautela, mas também havia algo novo: consciência. Ela não precisava mais provar o quanto trabalhava. Precisava escolher onde valia a pena trabalhar.

Porque, no fim das contas, o problema nunca foi falta de esforço. Foi excesso de invisibilidade.

Reflexões para você, leitor atento do Jornal O Serigráfico

  1. Quantas “Formigas” passaram pela sua serigrafia, garantindo que as cores saíssem perfeitas e os prazos fossem cumpridos, sem que você percebesse o valor real que elas sustentavam?
  2. Sua organização mede apenas o esforço visível e o barulho das reuniões, ou consegue enxergar o trabalho silencioso que previne o erro?
  3. Quantos resultados caem na sua empresa, não por falta de talento, mas por excesso de desgaste emocional da equipe?
  4. Você está contratando mais gente para “resolver” o problema, ou está tentando substituir a dedicação e a memória institucional de que não soube cuidar?
  5. E a pergunta mais incômoda de todas, para quem lida com custos de produção: o que custa mais caro — investir no reconhecimento de pessoas… ou ignorá-las até perdê-las e ter que recomeçar do zero?

Nos vemos na próxima fábula

Eduardo Levy Cotes, Consultor de Empresas Administrador Coaching

Especialista em Marketing Vendas Treinamentos Palestrante

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E-mail : atendimento@mgdmarketing.com.br

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