Claudilei Simões de Sousa

Mara de Paula Giacomeli

Como você está?

Percebo que o “tudo bem?” se tornou o “olá” da nossa era: uma saudação disfarçada de pergunta, onde quem questiona não espera necessariamente uma resposta e quem responde raramente confessa o que realmente está passando. Vivemos no império do automático.

Recentemente, em uma leitura, encontrei a seguinte frase: “‘Tudo bem?’ Ninguém que faz essa pergunta quer mesmo saber a resposta. E ninguém que dá uma resposta fala a verdade”. O cinismo da frase choca porque, no fundo, sabemos que ela carrega uma boa dose de realidade. Mas a verdade é que não precisamos aceitar essa frieza como regra.

Antes mesmo de me deparar com esta frase no livro, eu já vinha, despretensiosamente, fazendo uma experiência ao passar pelos caixas de supermercado e percebi que a conexão humana permanece viva, aguardando apenas o estímulo correto.

Ao trocar o protocolar ‘Tudo bem?’ por um genuíno ‘Como você está?’, o cenário mudou. A diferença, a princípio, pareceu-me sutil, quase gramatical, mas o efeito foi psicológico. Enquanto a primeira opção soava como um botão de ‘próximo’ na esteira da vida, a segunda abria um espaço de escuta. O resultado dessa troca foi surpreendente. Pessoas que passariam por mim como figurantes de um dia corrido subitamente ganharam cor, voz e humanidade. Elas sorriram, pararam por um segundo e, às vezes, até confessaram: ‘Olha, hoje o dia está difícil’. Ali, entre um código de barras e uma sacola plástica, nascia uma conversa de verdade.”

Essa mudança de postura nos traz de volta à sabedoria de Nelson Mandela:

“Se você falar com um homem numa linguagem que ele compreende, isso entra na cabeça dele. Se você falar com ele em sua própria linguagem, você atinge seu coração.”

Quando perguntamos de verdade, estamos falando a “linguagem do coração”. Estamos dizendo ao outro que ele é visto, e não é apenas uma peça na engrenagem do nosso cotidiano.

Mudar uma frase pode, sim, mudar toda uma resposta — e talvez o dia de alguém. Que tal deixarmos de lado as perguntas que já vêm com resposta pronta?

Vamos nos comunicar melhor, com menos pressa e mais presença. Afinal, a vida acontece nos intervalos onde paramos de fingir que está tudo bem para, finalmente, sermos quem somos.

E você? Como está?

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