O barulho das impressoras industriais se mistura às conversas de empresários, estudantes e técnicos que caminham pelos corredores do Distrito Anhembi. Em poucos metros, uma máquina imprime uma peça em minutos. Logo ao lado, outra transforma um objeto comum em um modelo tridimensional. A tecnologia impressiona. A pergunta que fica é outra: toda essa evolução também está mudando a forma como a indústria produz, consome recursos e prepara seus profissionais?
Essa foi uma das principais discussões que atravessaram a FuturePrint 2026, realizada entre os dias 14 e 17 de julho, em São Paulo. Considerada a maior feira da América Latina voltada aos mercados de comunicação visual, impressão digital, serigrafia, sublimação e impressão 3D, o evento reuniu mais de 600 marcas expositoras e projetou receber mais de 45 mil visitantes. Muito além da apresentação de equipamentos e lançamentos, a edição deste ano apostou em um discurso claro: crescimento econômico precisa vir acompanhado de responsabilidade ambiental e qualificação profissional.
O tema apareceu em praticamente todos os espaços da feira.
Nos estandes, empresas exibiram soluções voltadas à redução de desperdícios, reaproveitamento de materiais e aumento da eficiência produtiva. Em paralelo, especialistas discutiram gestão financeira, inteligência artificial, impressão 3D, economia circular e sustentabilidade na cadeia têxtil. O objetivo era mostrar que competitividade já não depende apenas da aquisição de novas máquinas, mas também da capacidade de produzir melhor, gastar menos recursos e formar profissionais mais preparados.
“A FuturePrint nasceu com o propósito de impulsionar o desenvolvimento do setor e entendemos que esse crescimento precisa caminhar lado a lado com a responsabilidade ambiental, social e econômica. A sustentabilidade faz parte da evolução da feira e continuará sendo um compromisso permanente”, afirmou Yeda Monteiro, business manager da FuturePrint.
Na prática, a organização afirma ter adotado medidas para reduzir impactos ambientais durante a realização do evento. Entre elas estão o reaproveitamento de estruturas institucionais, a destinação adequada dos resíduos gerados, o uso de materiais certificados e iniciativas voltadas à economia circular. Algumas empresas expositoras também seguiram essa linha.
Duas delas receberam certificação Ouro no programa Better Stands, iniciativa da Informa Markets que incentiva estandes reutilizáveis. A TM desenvolveu uma estrutura planejada para ser utilizada em diferentes eventos e em seu showroom. Já a Bambu Lab apostou em um estande construído a partir de um contêiner reaproveitado. Segundo a empresa, o modelo deve reduzir significativamente tanto a geração de resíduos quanto os custos de montagem nas próximas edições.
Mas sustentabilidade, na visão dos especialistas convidados, não termina na montagem da feira.
Durante o Talks FutureTêxtil, a professora da USP e presidente da Associação Brasileira de Tecnologia Têxtil, Confecção e Moda (ABTT), Camila Borelli, defendeu que a preocupação ambiental precisa começar muito antes da impressão. Ela destacou que decisões tomadas na escolha das fibras, dos insumos e dos processos industriais influenciam diretamente o potencial de reciclagem e o impacto ambiental dos produtos ao final de sua vida útil.
Outro aspecto recorrente foi a educação.
Ao longo dos quatro dias, a programação reuniu dezenas de palestras gratuitas sobre gestão, liderança, finanças, inteligência artificial, impressão 3D e processos produtivos. Em diferentes auditórios, o discurso convergiu para uma mesma conclusão: dominar uma técnica já não basta.
O engenheiro Nilson Tsuji chamou atenção para um comportamento frequente entre empreendedores que chegam às feiras esperando encontrar soluções imediatas.
“Não adianta acreditar na promessa mágica de que, em dois dias, vai ficar rico. A mudança acontece aos poucos, corrigindo processos, aprendendo novas técnicas e melhorando a gestão.”
Na mesma direção, o administrador Felipe Chiconato alertou que muitos empresários ainda administram seus negócios baseados na experiência ou na observação da concorrência, sem recorrer aos próprios indicadores financeiros. Para ele, compreender custos, margem de lucro e ponto de equilíbrio continua sendo um dos maiores desafios das pequenas empresas do setor.
A inteligência artificial também ocupou espaço importante na programação.
Em vez de apresentar a tecnologia como substituta da mão de obra especializada, os debates mostraram um cenário mais equilibrado. Otávio Abate defendeu que a IA acelera processos e amplia a produtividade, mas não elimina a necessidade de conhecimento técnico. “A inteligência artificial não vai substituir um bom operador”, afirmou durante sua palestra sobre impressão 3D.
A feira também abriu espaço para iniciativas públicas. Pela primeira vez, a Rede Fab Lab Livre SP participou da FuturePrint oferecendo oficinas gratuitas de digitalização 3D e apresentando ao público tecnologias disponíveis em seus laboratórios espalhados pela cidade de São Paulo. A proposta aproxima estudantes, pequenos empreendedores e profissionais de equipamentos que, até poucos anos atrás, estavam restritos a grandes empresas.
Enquanto o mercado discute automação, inteligência artificial e novos processos produtivos, outra mudança foi anunciada.
A partir de 2027, a FuturePrint passará a se chamar FuturePrint&Sign. Segundo a organização, a alteração busca representar de forma mais ampla a evolução dos segmentos atendidos pela feira e reforçar sua posição como plataforma de negócios e inovação.
Ainda assim, o desafio vai além da mudança de nome.
Eventos como a FuturePrint mostram uma indústria que busca responder às cobranças por eficiência e responsabilidade ambiental sem perder competitividade. O discurso apresentado ao longo dos quatro dias aponta para uma transformação em curso. A questão é que a velocidade dessa mudança dependerá menos das máquinas expostas nos estandes e mais da capacidade das empresas de incorporar essas práticas quando as luzes da feira se apagarem.
Porque inovação pode ser apresentada em uma demonstração de poucos minutos. Transformação, por outro lado, só se confirma quando deixa de ser promessa e passa a fazer parte da rotina de quem produz.
https://www.feirafutureprint.com.br/





