Prezada leitora, prezado leitor, seguimos em nosso quentíssimo Jornal O Serigráfico com mais uma história do nosso universo corporativo.
Depois de conhecermos Zilá Lagartixa e Edgar Gafanhoto, chegou a hora de colocá -los diante de um velho conhecido das empresas modernas: a promessa rápida, embalada como solução definitiva.
Nossa cena se abre na manhã de segundafeira, logo na primeira semana útil do ano. O escritório ainda tinha cheiro de café recém -passado e de esperança recém-requentada. Algumas cadeiras vazias denunciavam que havia gente de férias — e outras ausências denunciavam que havia gente “presente”, mas já cansada.
Na entrada do elevador, um cartaz novo brilhava como se fosse anúncio de shopping:
“DESAFIO 21 DIAS DE ALTA PERFORMANCE — Transforme sua vida e sua carreira!”
Abaixo, em letras menores: Ranking. Premiação. Certificado. Reconhecimento.
Zilá Lagartixa parou em frente ao cartaz como quem encontra um velho amor tóxico.
— Não… — sussurrou, quase ofendida. — De novo isso?
Edgar Gafanhoto apareceu ao lado, com sua calma de sempre, carregando uma garrafa de água e um caderno.
— O que foi? — perguntou, olhando o cartaz como quem olha a previsão do tempo.
— Isso aí — disse Zilá, apontando. — “21 dias”. É o meu gatilho. É meu trauma embrulhado em PowerPoint.
Edgar arqueou a sobrancelha.
— E você vai entrar?
Zilá abriu a boca, fechou, abriu de novo. — Eu… não sei. Parece tentador. É tão bonito quando começa.
Antes que Edgar respondesse, uma voz firme e simpática os interrompeu.
— Bom dia! Vocês viram a novidade? — perguntou Rute Coruja, do RH, com uma prancheta nas mãos e um crachá impecável.
Rute era do tipo que enxergava o clima antes de o clima se formar. Olhos atentos, fala serena, sorriso profissional — daqueles que acolhem e auditam ao mesmo tempo.
— Vi — respondeu Zilá. — E já estou sentindo a minha autoestima ameaçada.
Rute riu com delicadeza.
— A intenção é boa, Zilá. A empresa quer incentivar hábitos, foco, rotina… Começo de ano é uma ótima oportunidade.
Edgar olhou para Rute e depois para Zilá. — Incentivar com ranking? — perguntou, sem agressividade. Só com precisão. Rute manteve o sorriso, mas a prancheta
ficou um pouco mais firme na mão.
— O ranking é só um estímulo. As pessoas gostam de competir.
Zilá suspirou.
— Eu gosto é de continuar, Rute. Só que eu sempre começo e… sumo.
Rute inclinou a cabeça, com genuína atenção.
— Então é para você, Zilá. O desafio ajuda a manter o ritmo.
Edgar coçou o queixo, pensativo.
— Ajuda… por 21 dias — disse ele. — E no dia 22?
Rute piscou devagar, como quem mede palavras.
— No dia 22… a pessoa já criou o hábito.
— E qual é a premiação? — perguntou, com ironia cansada.
Rute consultou a prancheta.
— Um vale-presente, destaque no mural e… uma conversa com a diretoria.
Zilá soltou um riso curto.
— Quer dizer: eu viro “case” por três semanas e depois volto a ser eu.
Rute tentou suavizar.
— Zilá, não seja assim. O desafio pode ser o empurrão que faltava.
Edgar encostou na parede, calmo.
— Empurrão é bom. O problema é quando empurram sem construir chão.
Zilá olhou para ele.
— Traduz.
Edgar abriu o caderno e mostrou uma página com quadrinhos desenhados à mão. Alguns dias tinham “X”. Outros estavam em branco.
Zilá olhou para Edgar com aquele olhar de quem pede socorro sem pedir.
Edgar apontou para o cartaz.
— Posso fazer uma pergunta, Rute? Quantas pessoas, no ano passado, chegaram até o fim?
Rute respirou fundo.
— Muitas começaram.
Edgar assentiu.
— Eu sei. E quantas continuaram em fevereiro? Em junho? Em dezembro?
Rute baixou os olhos por um segundo — o suficiente para admitir a realidade sem precisar confessar.
— Edgar… — começou ela, com voz de quem tenta equilibrar o discurso institucional com a vida real —, a empresa precisa de iniciativas.
— Concordo — respondeu Edgar. — Só não confunda iniciativa com transformação.
Zilá se aproximou do cartaz, lendo de novo a palavra “premiação”.
— Isso aqui é o meu ano — disse ele. — Não o meu janeiro.
Rute se aproximou, curiosa apesar de si. — Você faz isso sempre?
— Sempre — respondeu Edgar. — E quando eu falho, eu marco também. Não para me punir. Para não mentir para mim.
Zilá engoliu seco.
— Eu tenho medo de falhar — confessou. — Porque quando eu falho, eu sumo. Eu desapareço de mim mesma.
Edgar apontou para um dia em branco. — Eu falhei aqui. E aqui. Mas no dia seguinte eu voltei com o mínimo.
Rute cruzou os braços, interessada.
— O mínimo?
— O suficiente para não quebrar a sequência — disse Edgar. — O suficiente para não dramatizar.
Zilá ficou em silêncio por alguns segundos. Aquele silêncio que não é vazio: é digestão.
— Então, Edgar… você acha que eu não devo entrar no desafio? — perguntou ela.
Edgar olhou para o cartaz mais uma vez. — Eu acho que você pode entrar. Só não
entregue sua vida para um cronômetro. Use o desafio como vitrine… e construa seu sistema como alicerce.
Rute pareceu tocar nesse ponto sem querer.
— E se a empresa ajudasse no alicerce? — perguntou, quase para si mesma. — Em vez de só cobrar resultado em 21 dias…
Edgar sorriu, pequeno.
— Aí sim seria um desafio de verdade. Zilá respirou fundo. Pegou o celular.
Abriu o calendário.
— Tá. Eu entro — disse ela. — Mas do meu jeito.
Rute sorriu.
— Do seu jeito como?
Zilá olhou para Edgar e respondeu com um brilho novo, discreto:
— Sem “tudo ou nada”. Sem sumir no dia 10. Sem me punir por ser humana. Eu vou marcar o mínimo. E vou voltar.
Edgar assentiu.
— A diferença entre 21 dias de esforço e 300 dias de progresso…
— …não é empolgação — completou Zilá. — É continuidade.
Rute, pela primeira vez naquela manhã, largou a prancheta um pouco mais leve.
— Talvez — disse ela — eu devesse mudar algumas regras desse desafio.
Edgar ergueu o caderno.
— Comece por uma: ninguém falha por falhar. Falha por parar de voltar.
Zilá sorriu. Não o sorriso de quem venceu, mas o de quem, finalmente, parou de brigar com o próprio ritmo.
Reflexões para você, leitor atento:
- Quantas vezes você entrou em desafios “de 21 dias”… e abandonou a si mesmo no dia 22?
- Você está construindo um sistema que te sustenta nos dias ruins — ou só um plano que funciona quando você está motivado?
- O seu ambiente (empresa, casa, rotina) ajuda sua constância… ou sabota sua continuidade?
- Você está buscando transformação… ou apenas repetindo recomeços?
Às vezes, o problema não é começar de novo. É acreditar que a vida muda em 21 dias e se culpar quando ela exige um ano inteiro.
Nos vemos na próxima fábula.
Eduardo Levy Cotes, Consultor de Empresas Administrador Coaching
Especialista em Marketing Vendas Treinamentos Palestrante
Instagram @edulevyvendas
E-mail : atendimento@mgdmarketing.com.br
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