Claudilei Simões de Sousa

Mara de Paula Giacomeli

O Desafio dos 21 Dias (e o ano inteiro que ninguém posta)

Prezada leitora, prezado leitor, seguimos em nosso quentíssimo Jornal O Serigráfico com mais uma história do nosso universo corporativo.

Depois de conhecermos Zilá Lagartixa e Edgar Gafanhoto, chegou a hora de colocá -los diante de um velho conhecido das empresas modernas: a promessa rápida, embalada como solução definitiva.

Nossa cena se abre na manhã de segundafeira, logo na primeira semana útil do ano. O escritório ainda tinha cheiro de café recém -passado e de esperança recém-requentada. Algumas cadeiras vazias denunciavam que havia gente de férias — e outras ausências denunciavam que havia gente “presente”, mas já cansada.

Na entrada do elevador, um cartaz novo brilhava como se fosse anúncio de shopping:

“DESAFIO 21 DIAS DE ALTA PERFORMANCE — Transforme sua vida e sua carreira!”

Abaixo, em letras menores: Ranking. Premiação. Certificado. Reconhecimento.

Zilá Lagartixa parou em frente ao cartaz como quem encontra um velho amor tóxico.

— Não… — sussurrou, quase ofendida. — De novo isso?

Edgar Gafanhoto apareceu ao lado, com sua calma de sempre, carregando uma garrafa de água e um caderno.

— O que foi? — perguntou, olhando o cartaz como quem olha a previsão do tempo.

— Isso aí — disse Zilá, apontando. — “21 dias”. É o meu gatilho. É meu trauma embrulhado em PowerPoint.

Edgar arqueou a sobrancelha.

— E você vai entrar?

Zilá abriu a boca, fechou, abriu de novo. — Eu… não sei. Parece tentador. É tão bonito quando começa.

Antes que Edgar respondesse, uma voz firme e simpática os interrompeu.

— Bom dia! Vocês viram a novidade? — perguntou Rute Coruja, do RH, com uma prancheta nas mãos e um crachá impecável.

Rute era do tipo que enxergava o clima antes de o clima se formar. Olhos atentos, fala serena, sorriso profissional — daqueles que acolhem e auditam ao mesmo tempo.

— Vi — respondeu Zilá. — E já estou sentindo a minha autoestima ameaçada.

Rute riu com delicadeza.

— A intenção é boa, Zilá. A empresa quer incentivar hábitos, foco, rotina… Começo de ano é uma ótima oportunidade.

Edgar olhou para Rute e depois para Zilá. — Incentivar com ranking? — perguntou, sem agressividade. Só com precisão. Rute manteve o sorriso, mas a prancheta

ficou um pouco mais firme na mão.

— O ranking é só um estímulo. As pessoas gostam de competir.

Zilá suspirou.

— Eu gosto é de continuar, Rute. Só que eu sempre começo e… sumo.

Rute inclinou a cabeça, com genuína atenção.

— Então é para você, Zilá. O desafio ajuda a manter o ritmo.

Edgar coçou o queixo, pensativo.

— Ajuda… por 21 dias — disse ele. — E no dia 22?

Rute piscou devagar, como quem mede palavras.

— No dia 22… a pessoa já criou o hábito.

— E qual é a premiação? — perguntou, com ironia cansada.

Rute consultou a prancheta.

— Um vale-presente, destaque no mural e… uma conversa com a diretoria.

Zilá soltou um riso curto.

— Quer dizer: eu viro “case” por três semanas e depois volto a ser eu.

Rute tentou suavizar.

— Zilá, não seja assim. O desafio pode ser o empurrão que faltava.

Edgar encostou na parede, calmo.

— Empurrão é bom. O problema é quando empurram sem construir chão.

Zilá olhou para ele.

— Traduz.

Edgar abriu o caderno e mostrou uma página com quadrinhos desenhados à mão. Alguns dias tinham “X”. Outros estavam em branco.

Zilá olhou para Edgar com aquele olhar de quem pede socorro sem pedir.

Edgar apontou para o cartaz.

— Posso fazer uma pergunta, Rute? Quantas pessoas, no ano passado, chegaram até o fim?

Rute respirou fundo.

— Muitas começaram.

Edgar assentiu.

— Eu sei. E quantas continuaram em fevereiro? Em junho? Em dezembro?

Rute baixou os olhos por um segundo — o suficiente para admitir a realidade sem precisar confessar.

— Edgar… — começou ela, com voz de quem tenta equilibrar o discurso institucional com a vida real —, a empresa precisa de iniciativas.

— Concordo — respondeu Edgar. — Só não confunda iniciativa com transformação.

Zilá se aproximou do cartaz, lendo de novo a palavra “premiação”.

— Isso aqui é o meu ano — disse ele. — Não o meu janeiro.

Rute se aproximou, curiosa apesar de si. — Você faz isso sempre?

— Sempre — respondeu Edgar. — E quando eu falho, eu marco também. Não para me punir. Para não mentir para mim.

Zilá engoliu seco.

— Eu tenho medo de falhar — confessou. — Porque quando eu falho, eu sumo. Eu desapareço de mim mesma.

Edgar apontou para um dia em branco. — Eu falhei aqui. E aqui. Mas no dia seguinte eu voltei com o mínimo.

Rute cruzou os braços, interessada.

— O mínimo?

— O suficiente para não quebrar a sequência — disse Edgar. — O suficiente para não dramatizar.

Zilá ficou em silêncio por alguns segundos. Aquele silêncio que não é vazio: é digestão.

— Então, Edgar… você acha que eu não devo entrar no desafio? — perguntou ela.

Edgar olhou para o cartaz mais uma vez. — Eu acho que você pode entrar. Só não

entregue sua vida para um cronômetro. Use o desafio como vitrine… e construa seu sistema como alicerce.

Rute pareceu tocar nesse ponto sem querer.

— E se a empresa ajudasse no alicerce? — perguntou, quase para si mesma. — Em vez de só cobrar resultado em 21 dias…

Edgar sorriu, pequeno.

— Aí sim seria um desafio de verdade. Zilá respirou fundo. Pegou o celular.

Abriu o calendário.

— Tá. Eu entro — disse ela. — Mas do meu jeito.

Rute sorriu.

— Do seu jeito como?

Zilá olhou para Edgar e respondeu com um brilho novo, discreto:

— Sem “tudo ou nada”. Sem sumir no dia 10. Sem me punir por ser humana. Eu vou marcar o mínimo. E vou voltar.

Edgar assentiu.

— A diferença entre 21 dias de esforço e 300 dias de progresso…

— …não é empolgação — completou Zilá. — É continuidade.

Rute, pela primeira vez naquela manhã, largou a prancheta um pouco mais leve.

— Talvez — disse ela — eu devesse mudar algumas regras desse desafio.

Edgar ergueu o caderno.

— Comece por uma: ninguém falha por falhar. Falha por parar de voltar.

Zilá sorriu. Não o sorriso de quem venceu, mas o de quem, finalmente, parou de brigar com o próprio ritmo.

Reflexões para você, leitor atento:

  • Quantas vezes você entrou em desafios “de 21 dias”… e abandonou a si mesmo no dia 22?
  • Você está  construindo  um  sistema que te sustenta nos dias ruins — ou só um plano que funciona quando você está motivado?
  • O seu ambiente (empresa, casa, rotina) ajuda sua constância… ou sabota sua continuidade?
  • Você está buscando transformação… ou apenas repetindo recomeços?

Às vezes, o problema não é começar de novo. É acreditar que a vida muda em 21 dias e se culpar quando ela exige um ano inteiro.

Nos vemos na próxima fábula.

Eduardo Levy Cotes, Consultor de Empresas Administrador Coaching

Especialista em Marketing Vendas Treinamentos Palestrante

Instagram @edulevyvendas

E-mail : atendimento@mgdmarketing.com.br

Views: 0

Por:

Compartilhe:

EXPEDIENTE

CNPJ: 65.399.586/0001-54
Reg. N. 13-Liv. B2 -28/01/98
R.C.P.J – Cotia/SP
Art. 8 Lei 5.250 (Lei de Imprensa)
INPI – Art.158 PLI-RPI N. 1390-97

Comercial:
Claudilei Simões de Sousa
sousa@oserigrafico.com


Editorial:
Mara de Paula Giacomeli
mara@oserigrafico.com


Administrativo:
administrativo@oserigrafico.com


Diagramação:
Aristides Neto
arte@oserigrafico.com

Anuncie aqui: