Prezado leitor, prezada leitora,
Existem heranças que cabem em um inventário.
Casas.
Terrenos.
Máquinas.
Dinheiro.
Mas existem outras que não aparecem em escritura alguma.
Elas pesam muito mais.
São aquelas que chegam na forma de um sobrenome, de uma cultura construída ao longo de décadas e de uma cadeira que um dia alguém precisará ocupar.
Agosto sempre traz esse tipo de reflexão. Talvez porque seja o mês em que lembramos
dos pais.
Talvez porque seja também o mês em que muitos empresários começam a pensar, pela primeira vez, quem continuará aquilo que um dia começaram.
Na Gráfica Arena, o inverno havia chegado cedo.
O movimento seguia intenso por causa das campanhas do Dia dos Pais, quando uma figura conhecida atravessou lentamente o portão principal.
Era o Dr. Castor Sênior.
Fazia meses que não aparecia.
Os cabelos já estavam completamente brancos. Os passos eram mais lentos.
Mas havia algo que permanecia intacto: aqueles olhos capazes de enxergar um desalinhamento de registro antes mesmo que qualquer operador percebesse.
Os funcionários interromperam o que faziam. Alguns sorriram.
instintivamente.
A presença dele nunca foi apenas uma visita. Era história entrando pela porta.
No mezanino, Castor Filho avistou o pai. Sentiu o peito apertar.
Mesmo depois de tantos anos dirigindo a empresa, ainda existia dentro dele aquele garoto querendo provar que era capaz.
Desceu as escadas rapidamente.
Abraçou o velho.
Mas havia mais respeito do que espontaneidade naquele gesto.
— Que surpresa, pai…
— Passei para tomar um café… e ver como anda a minha velha Arena.
Castor sorriu.
— Agora ela é nossa.
O velho respondeu sem levantar o tom: — Espero que sim.
Percorreram juntos o galpão.
Outros
endireitaram
a postura
O pai observava tudo.
Não fazia críticas.
Não elogiava.
Apenas observava.
Depois de alguns minutos, parou diante da nova impressora digital.
Passou a mão lentamente sobre sua estrutura metálica.
— Bonita máquina…
Fez uma pequena pausa.
— Mas faz menos barulho do que as antigas. Castor respondeu imediatamente.
— Hoje o mercado exige velocidade. Se não automatizar, a concorrência atropela.
O velho apenas assentiu.
— Entendo…
Depois acrescentou:
— Só não deixe a velocidade atropelar a essência.
O filho não respondeu.
Naquele instante, Beto Beija-Flor entrou quase correndo.
— Doutor! Temos um problema. A matriz do cliente Premium travou na gravação. Se esse lote não sair hoje, perdemos toda a campanha do Dia dos Pais.
Castor caminhou rapidamente até o equipamento.
Painel.
Comandos.
Reinicialização.
Nova tentativa.
Erro novamente.
Chamou o suporte técnico.
Nada.
Enquanto isso, a equipe inteira acompanhava em silêncio.
O relógio parecia acelerar.
Beto andava de um lado para o outro.
Zeca Zebra olhava para o estoque.
Cada minuto aumentava o prejuízo.
E, durante todo esse tempo…
O velho Castor permanecia parado.
Não dizia absolutamente nada.
Nem um conselho.
Nem uma crítica.
Nem um gesto.
Apenas observava.
Foi então que Tobias Tartaruga aproximou-se lentamente do filho.
Como sempre fazia.
Sem pressa.
Sem fazer barulho.
Parou ao seu lado e perguntou:
— Posso lhe fazer uma pergunta?
Castor nem levantou os olhos da máquina. — Agora, Tobias?
— Principalmente agora.
Silêncio.
Então veio apenas uma frase.
— Seu pai não veio aqui para consertar essa máquina. Veio descobrir se você consegue.
Castor congelou.
Olhou para o pai.
Pela primeira vez percebeu que ele realmente não faria nada.
Não porque não soubesse.
Mas porque aquele problema já não lhe pertencia.
Pertencia ao filho.
Respirou profundamente.
Desligou o equipamento.
Afastou-se dois passos.
Olhou novamente para toda a linha de produção.
Foi então que percebeu algo que o computador não mostrava.
O fluxo da tela.
A posição da matriz.
A pressão aplicada.
Chamou Zeca.
Reorganizou a sequência.
Alterou a preparação manual.
Reiniciou o processo.
A máquina voltou à vida.
O primeiro impresso saiu perfeito.
O galpão inteiro respirou junto.
Beto sorriu.
Zeca comemorou discretamente.
Só então o velho Castor caminhou até a bancada.
Passou novamente a mão sobre a tela.
Sorriu.
— Curioso… As máquinas mudaram. Os homens também. Mas a tinta continua obedecendo às mesmas leis.
Castor abaixou a cabeça.
Agora entendia.
O pai nunca quis mostrar que ainda era melhor.
Queria apenas ter certeza de que o filho já estava pronto.
Quando todos voltaram ao trabalho, Tobias aproximou-se novamente.
— Filho… Toda árvore que cresce depressa demais costuma ter raízes pequenas demais. A tecnologia faz crescer. O caráter faz permanecer.
Castor ficou olhando o movimento da produção.
As máquinas eram novas.
Os computadores também.
Mas tudo aquilo existia porque, décadas antes, alguém havia carregado baldes de tinta, revelado
telas ao sol e acreditado numa empresa que ainda nem tinha nome.
Naquela tarde, ele entrou sozinho na sala da presidência.
Sobre a mesa de vidro repousavam notebook, tablet e celular.
Abriu uma gaveta.
Guardou todos eles.
Depois colocou sobre a mesa um velho formão de madeira que pertencera ao pai.
Chamou o Dr. Castor Sênior.
Quando ele entrou, o filho levantou-se.
Olhou nos olhos daquele homem que durante tantos anos confundira com um juiz.
Sorriu.
— Durante muito tempo achei que precisava provar que era diferente do senhor.
Fez uma pausa.
A voz agora carregava emoção.
— Hoje descobri que preciso apenas ser digno do que o senhor começou.
O velho Castor não respondeu.
Apenas colocou a mão sobre o ombro do filho. Naquele gesto silencioso não havia aprovação. Nem cobrança.
Havia algo muito maior.
Entrega.
Porque agosto ensina uma verdade que nenhuma faculdade consegue ensinar.
Existem pais que deixam casas.
Existem pais que deixam empresas.
Existem pais que deixam dinheiro.
Mas os maiores deixam princípios. Patrimônio pode ser perdido.
Tecnologia envelhece.
Mercados mudam.
Máquinas ficam obsoletas.
Mas caráter atravessa gerações.
E talvez seja exatamente isso que chamamos de legado.
Reflexões para você, leitor atento
- Se você é fundador, está preparando alguém para continuar sua obra… ou apenas esperando encontrar uma cópia de si mesmo?
- Se você é sucessor, está tentando apagar o passado para provar seu valor… ou usando a experiência de quem veio antes para enxergar mais longe?
- Sua empresa está investindo apenas em tecnologia… ou também está preservando os valores que a fizeram chegar até aqui?
- Qual é o verdadeiro patrimônio que você deixará para seus filhos, colaboradores ou sucessores quando um dia sua cadeira ficar vazia?
- E, neste Dia dos Pais, permita-me fazer a pergunta mais importante desta edição: quando seu nome deixar de estar na porta da empresa, o que permanecerá vivo será apenas o negócio… ou o caráter com que você escolheu construí-lo?
“As máquinas mudaram. Os homens também. Mas a viscosidade e as leis da tinta continuam as mesmas.”
Nos vemos na próxima fábula.
Eduardo Levy Cotes, Consultor de Empresas Administrador Coaching
Especialista em Marketing Vendas Treinamentos Palestrante
Instagram @edulevyvendas
E-mail : atendimento@mgdmarketing.com.br


