No mundo da comunicação visual, onde a pressa digital muitas vezes atropela o refinamento técnico, figuras como Francisco Dias dos Santos Neto surgem como guardiões de um saber que une o suor do trabalho manual à precisão dos softwares modernos. Natural de Cotegipe, no oeste baiano — terra onde, como ele mesmo define, “se planta e colhe” —, Neto construiu uma carreira sólida que atravessa quase quatro décadas de transformações tecnológicas.
A história de Francisco com a imagem começou não por uma imposição do mercado, mas pela urgência da expressão. Em 1988, o desejo de publicar o fanzine “SAGA” e conviver com os mestres do traço de Brasília, como Osmir Vieira, Moacir Tabosa e o cartunista Raí, o levou a buscar na serigrafia uma alternativa viável e acessível para reproduzir sua arte. O que começou como uma solução econômica para um gibi tornou-se o alicerce de uma vida dedicada às tintas e telas.
Neto viveu de perto o divisor de águas da indústria gráfica. “Eu era desenhista manual. Em 1988, com a chegada do computador, veio a demissão”, recorda. O que para muitos seria o fim de uma era, para ele foi o combustível para a evolução. Sob a tutela de veteranos como Felix Amorim e o icônico Gigi, ele aprendeu que a tecnologia não substitui o talento, mas o amplia.
Sua trajetória é um roteiro pelas grandes casas do setor, com passagens pela Silk Zaz, Pronave, Malharias Oliveira e Allegro. Em cada etapa, o título de arte-finalista e serigrafista foi exercido com a consciência de que, embora os insumos e matérias-primas tenham evoluído, a essência técnica permanece artesanal. Para Neto, a serigrafia é uma dança entre agilidade e paciência, onde cada “berço” de impressão dita o ritmo da produção.
Formado em serigrafia, fotografia e design, Francisco não se limita ao óbvio. Ele carrega consigo o repertório de um tempo em que projetos eram executados com caneta nanquim, normógrafo e Letraset. Essa bagagem “raiz” hoje alimenta seu olhar fotográfico — lapidado em curso no Ceub — que serve de fonte inspiradora para estampas exclusivas e criações autorais.
Atualmente, ele se divide entre a tradição da tela e a inovação do DTF (Direct to Film). Com a sabedoria de quem já viu muitas modas passarem, ele analisa a nova tecnologia com pragmatismo: “Costumo dizer que o DTF veio para o serígrafo parar de sangrar”. Para ele, a técnica moderna não mata a antiga, mas a socorre, resolvendo o gargalo das pequenas tiragens e dos detalhes minuciosos que antes exigiam um esforço hercúleo no rodo e na emulsão.
Apesar de enxergar uma certa desvalorização da mão de obra atual, fruto de uma falta de interesse na evolução profissional individual, Francisco Neto permanece um entusiasta. Seu conselho para quem está começando é generoso: “Fiquem à vontade para se lambuzar na criatividade”. Para ele, a serigrafia continua sendo a ferramenta mais completa de marketing, capaz de transformar de uma simples sacola plástica a um uniforme corporativo em um veículo de comunicação potente.
Conectado ao presente, Neto acompanha as novas referências do setor nas redes sociais e mantém o espírito de aprendiz ativo. Ao resumir sua caminhada de 36 anos, ele usa uma frase que define bem o propósito de seu trabalho: “A arte que agrega valor à peça”.
Em um mercado saturado de reproduções automáticas, a jornada de Francisco Neto lembra que, por trás de cada estampa, deve haver o olho de um designer, a precisão de um fotógrafo e, acima de tudo, a alma de um artista que não teme o novo, mas que jamais esquece de onde veio.
E-mail: netoarte25@gmail.com
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