Claudilei Simões de Sousa

Mara de Paula Giacomeli

O Pedido que Ninguém Fez – PARTE 01

Prezado leitor, prezada leitora,
Setembro chegou.

E, curiosamente, é justamente quando o ano entra em sua reta decisiva que muitas empresas descobrem uma verdade desconfortável: nem tudo aquilo que sustenta um grande resultado aparece nos relatórios.

O mundo corporativo gosta dos holofotes. Dos vendedores premiados.

Dos profissionais que sobem ao palco.

Dos currículos recheados de certificados. Das máquinas novas que ficam bonitas nas

fotografias institucionais.

Mas existe uma parte das empresas que quase nunca aparece na foto.

Os bastidores.

E é justamente ali que muitas organizações constroem sua verdadeira reputação.

Nossa história acontece na Gráfica Supimpas, uma tradicional empresa de Lindonópolis, conhecida pela qualidade de seus trabalhos.

Entre todos os profissionais da casa, ninguém brilhava mais do que Guiomar Avilha.

Designer extremamente talentosa, Guio-mar dominava softwares, perfis de cor, tipografias e acabamentos como poucos.

Se existisse uma diferença mínima entre dois tons de Pantone, ela percebia.

Se uma imagem estivesse desalinhada por um milímetro, aquilo lhe tirava o sono.

Seu trabalho era extraordinário.

E Guiomar sabia disso.

— Se depender de mim, trabalho ruim não sai desta gráfica — costumava dizer enquanto ajustava os óculos diante de duas telas enormes.

Quem coordenava aquela equipe era Roberto Resmo.

Ou simplesmente Beto Resmo.

Beto não tinha fama.

Não fazia discursos empolgados.

Não possuía certificados internacionais pendurados na parede.

E dificilmente alguém o encontraria falando sobre suas próprias qualidades.

Mas havia algo curioso naquele homem. Quando uma operação travava, ele aparecia. Quando dois colaboradores começavam a

se estranhar, ele percebia antes de a discussão explodir.

Quando um cliente ficava inquieto na recepção, Beto mudava o rumo da conversa antes mesmo de a reclamação surgir.

Ele dominava uma ciência esquecida.

A ciência de prestar atenção.

Numa terça-feira chuvosa, pouco depois das oito da manhã, um carro preto estacionou diante da Gráfica Supimpas.

Dele desceu Sandoval Eta.

Um dos maiores contratantes da região. Conhecido por comprar muito e tolerar

pouco.

Entrou carregando uma pasta grossa e um jornal econômico dobrado debaixo do braço.

Nem se sentou.

Apenas colocou o briefing sobre a mesa.

— Preciso de tudo isso amanhã, às sete e meia.

Guiomar abriu os documentos.

Cinco peças.

Três versões de campanha.

Acabamento especial.

Cores rigorosamente padronizadas.

Ela levantou os olhos.

— Amanhã?

— Amanhã — repetiu Sandoval.

— É um prazo bastante apertado. Sandoval cruzou os braços.

— Por isso procurei vocês.

Fez uma pequena pausa.

— Se fosse simples, faria com qualquer gráfica.

Guiomar sorriu discretamente.

Desafios eram seu combustível.

— Pode deixar comigo.

Sandoval apontou para uma prova antiga.

— Só não aceito erro de cor. Já perdi campanhas inteiras por causa de fornecedores que prometiam excelência e entregavam surpresa.

Guiomar respondeu imediatamente:

— Nesse ponto, o senhor pode ficar tranquilo. Separação de cores é comigo.

Enquanto os dois discutiam detalhes técnicos, Beto permaneceu em silêncio.

Observava.

Sandoval consultou o relógio quatro vezes em menos de dez minutos.

Perguntou duas vezes sobre o horário da expedição.

Comentou, quase distraidamente, que aquele material seguiria direto para várias lojas da rede.

Quando lhe ofereceram café, respondeu:

— Sem açúcar. Bem quente.

Depois sentou-se por alguns minutos e abriu novamente o jornal econômico que carregava.

Beto percebeu tudo.

Não anotou nada.

Apenas guardou.

Assim que Sandoval saiu, Guiomar girou a cadeira.

— Vamos trabalhar, pessoal.

E trabalhou.

Durante horas.

Ajustou imagens.

Corrigiu vetores.

Refez uma composição inteira porque o azul institucional estava um tom abaixo do ideal.

Às dez da noite ainda permanecia diante do monitor.

Quando terminou, olhou para a tela com orgulho.

Era um trabalho impecável.

Enquanto isso, Beto caminhava silenciosamente pela operação.

Conversou com a expedição.

Conferiu horários.

Revisou embalagens.

Chamou o responsável pela logística.

— Esse pedido vai para onde depois daqui?

— Centro de distribuição do cliente.

— E depois?

O rapaz procurou nos documentos.

— Parece que segue para doze lojas.

Beto ficou alguns segundos pensando. Pegou uma caneta.

— Então vamos separar em doze volumes. O rapaz estranhou.

— Mas isso não está na ordem de serviço. Beto respondeu tranquilamente:

— Eu sei.

— E se não for necessário?

Ele sorriu.

— Amanhã descobrimos.

Na manhã seguinte, às seis e quarenta, a gráfica já estava desperta.

As máquinas aqueciam.

A tinta começava a correr pelas telas. Guiomar chegou pouco depois e encontrou

Beto conferindo algumas caixas cuidadosamente identificadas.

— Por que doze caixas?

— Uma para cada loja.

Ela franziu a testa.

— Mas Sandoval nunca pediu isso.

Beto terminou de fechar uma embalagem.

— Não.

— Então por que fez?

Ele respondeu apenas:

— Porque talvez ele precisasse.

Guiomar balançou a cabeça.

— Você complica as coisas, Beto.

— Às vezes, simplificar para o cliente dá um pouquinho mais de trabalho para nós.

Às sete e vinte e oito, Sandoval entrou pontualmente pela porta.

Olhou o relógio.

Depois olhou para Beto.

— Bom dia.

Na recepção, encontrou uma xícara decafé exatamente como havia pedido no dia anterior.

Sem açúcar.

Bem quente.

Sobre a mesa repousava a edição daquele mesmo jornal econômico.

Intacta.

Ao lado, um pequeno cartão informava: Produção concluída.

Qualidade conferida.

Expedição pronta.

Sandoval não comentou nada.

Apenas sentou.

Poucos minutos depois, Guiomar entrou trazendo as provas finais.

Ele examinou cada detalhe.

Passou os dedos sobre a impressão. Comparou as cores.

Analisou o acabamento.

Por fim, assentiu.

— Excelente trabalho.

Guiomar sorriu.

Era o elogio que esperava.

Então Sandoval fechou lentamente a pasta. Olhou novamente para o material.

E fez apenas uma pergunta.

— E a separação por lojas?

Guiomar parou.

Abriu o briefing.

Folheou as páginas.

Seu rosto perdeu, pela primeira vez, a segurança absoluta.

Aquela informação realmente não estava ali.

O silêncio tomou conta da sala.

Sandoval aguardava uma resposta.

Beto permanecia quieto ao lado da porta.

E era impossível saber se aquilo salvaria ou destruiria aquele contrato.

Continua…

Reflexões para você, leitor atento —

Parte I

  • Quantas vezes você ouviu apenas o que o cliente disse, sem perceber aquilo que ele revelou nas entrelinhas?
  • Na sua empresa, quem costuma observar mais: quem fala muito ou quem presta atenção?
  • Você acredita que excelência significa apenas cumprir um briefing ou compreender o contexto de quem está comprando?
  • Os detalhes invisíveis da sua operação são tratados como desperdício de tempo ou como investimento em confiança?
  • E uma pergunta para carregar até a próxima edição: quantas oportunidades passam despercebidas simplesmente porque ninguém parou para observar?

Nos vemos na continuação desta fábula.

Eduardo Levy Cotes, Consultor de Empresas – Administrador – Coaching
Especialista em Marketing – Vendas – Treinamentos – Palestrante
Instagram @edulevyvendas
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