Um pulo no passado não é saudosismo, mas uma lembrança que ainda faz sentido.
Estava na feira e lá veio um serígrafo participando do Rodo de Ouro; usou o isqueiro para dar uma ajeitada em uma impressão. Isso me levou às lembranças das dificuldades e da criatividade do profissional brasileiro. É impossível bater a versatilidade dos nossos serígrafos.
Temos tecnologia, temos equipamentos, mas ainda vigora a criatividade em momentos de dificuldade ou de improviso para acelerar o trabalho. Muitos dos nossos profissionais utilizam o “PAU DE FOGO” ou “POCOTÓ” — dê lá o nome que quiser, mas tecnicamente deveria se chamar defletor de calor —, um processo que utiliza o transporte de um botijão de gás por toda a oficina de serigrafia, fazendo uma pré-cura para a aplicação da segunda, terceira ou quarta cor sobre o tecido. É um tanto arcaico, mas faz parte dessa nobre e secular arte.
O que nossos profissionais ganham com isso? Correm risco ao utilizarem esse processo. Economia de energia, de tempo? Ok, em muitos locais a energia é escassa e custa caro, mas vamos continuar a improvisar até quando? Colocar em risco o profissional até quando? Os flash cures estão no mercado, cada dia mais funcionais e automatizados, mais fáceis de operacionalizar, mais seguros, produtivos e sem a insegurança de um acidente. Será que é tão difícil enxergar essa evolução e se adaptar a essa realidade?
Foi legal ver o nosso profissional utilizar o improviso naquele momento? Sim. Como disse, remeteu aos primórdios da profissão. Lá havia flash cure e tecnologia disponível; não deu para utilizar? Ok, poucos viram ou ficaram atentos a esse detalhe. Destaca a capacidade do profissional? Sim e não. No momento, sim; mas imagine se fosse uma produção grande e ter que tomar esse tipo de atitude a cada peça? KKKKK, seria um desastre.
Por favor, não estou criticando o profissional. Bato palmas para ele pelo discernimento do improviso e sei que, conhecendo-o bem, ele só utilizou esse recurso naquele momento. Em uma produção, ele não faria isso. Mas foi bom ver que nossos profissionais não se apertam quando a coisa aperta, que sabem sair do atropelo com classe e improviso, pois conhecem a profissão, seus limites e, mais ainda, até onde podem chegar em um momento crucial.
Parabéns aos nossos valorosos profissionais! Por mais tecnologia que possam implementar no setor de serigrafia, sempre teremos a possibilidade de ver artistas da profissão improvisando onde ninguém pensou ser possível.


